Blog criado criado para substituir uma página de Facebook de promoção de um livro em quatro volumes publicado na Bubok em novembro de 2019. Entretanto, o livro migrou para a Chiado em 2021 e para a Amazon em 2022, onde foi publicado igualmente um novo livro.
"O poeta morreu. Postumamente, se publicam os seus versos. (...) Maníaco sagrado, o poeta está próximo do xamã, do profeta e do louco, mas sem doutrina em que tenha de crer, nem divindades por que se deva deixar possuir, nem delírio a que esteja coercivamente submetido. Proclamador do patente que os outros ocultam ou evitam, ser poeta não é meio, mas princípio e fim."
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Carlos do Carmo
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
Golem
Escamas endurecidas pelo decurso dos anos
enrijecem uma pele outrora elástica
até membros, ombros, torso se moverem
com automaticidade mecânica ou plástica.
Qualquer coisa de inorgânico cresce em mim,
qualquer coisa de rocha ou de metal,
como alquímica transmutação rumo ao fim
numa reversão cruel da pedra dita filosofal.
Golem primevo, grosseiro e brutal,
amplificado o peso por cem, por mil,
cada passo desfere um golpe sísmico
tentando regresso à terra, seu antro, seu covil.
E a rigidez transmite-se ao pensamento,
torna hirtas, baças, cúbicas as ideias,
reações embotadas, atrito, arrastamento,
mente a morar no meio de múltiplas cefaleias.
As emoções estão rombas, desgastadas,
sem intensidade exceto se redundantes:
ansiedades estéreis, insónias extenuadas,
rancores antigos e obsessões frustrantes.
Se parecem iguais ao passado as sensações,
onde está a frescura das manhãs claras,
o brilho endoidecido dos límpidos verões,
noites envolventes, brisa ondulante das searas?
As palavras inertes que por cá inda estão
não deslizam, dificilmente se veem deslocadas,
como plúmbeas peças de pesada construção
só com violência no lugar devido colocadas.
As palavras pesam e não de sentido ou gravidez,
incapazes de gerar novas inflexões, novas
expressões,
repetidas à insignificância dada a escassez,
inaptos sortilégios, impotentes evocações.
Onde as palavras que antes floresciam nos meus
lábios?
Onde as imagens que espontaneamente fletiam mente?
Onde as reflexões que pareciam emanar de arcanos
sábios?
Onde a leveza que me fazia parecer levitar
aereamente?
Em lado algum, nem enterradas na lembrança,
que a própria memória se petrifica rigidez
e na mente já nem habita qualquer esperança,
mesmo fantástica, de viver dinâmico outra vez.
Agarro e puxo o pé para o calçar com esforço,
alço o corpo mastodôntico que me resiste inerte,
arrasto os pés cansados enquanto torço o torso
e não encontro roupa que não me oprima e aperte.
A natureza misericordiosa preliminarmente me
prepara
para o regresso à lama inorgânica de que bem cedo
provim,
seca agora, humidade inútil numa mente tornada tão
ignara,
fazendo desejar fim à pouca consciência que ainda
guardo de mim.
Dia a dia, com os movimentos cada vez mais
trôpegos,
articulações doridas, solidão, de alimentos sabor ruim,
já sem alvos, já sem gozos, já sem forças, já sem
fôlegos,
Para lá da zona do comércio livre dos corpos
Para lá da zona do comércio livre dos corpos,
para lá da compra e venda de emoções,
para lá da transação corrente de sorrisos e olhares,
para lá da troca de ambíguos gestos obscenos,
para lá da produção em série de lugares
comuns
brejeiros, românticos ou supostamente
sensuais,
para lá da loja de conveniência da
concordância e elogio
para obtenção de prazer fácil de
comunhão mascarado,
para lá do inevitável passeio turístico
de sedução
e da fantasia rebuscada nos
escaparates da perversão,
para lá do jantar de lirismo
encomendado,
para lá da comida rápida do esquema
já testado,
para lá da pornografia do decote
estrategicamente colocado,
para lá do ressentimento e vingança ao marido
encornado,
para lá do pagamento sexual à frustração e
rancor,
para lá da luxúria, do alívio e da dor,
amanhecendo calma sobre o mundo
A verdade do amor.
A luz que perpassa na vidraça,
poeira encantada levitando no
meio de nada,
aconchegando-se na penugem
dormente
de alvos fofos virgens seios
doados a um olhar transfigurado;
Os lábios perenes de um sorriso
dispostos na dádiva de um primeiro
eterno beijo;
A convulsão descontrolada das
lágrimas
do gume da palavra aguçada;
beicinho descaído na fragilidade
de uma tristeza que se quer
consolada;
um corpo que se entrega para
sempre
na voracidade imperiosa de tudo
ou nada;
as palavras arrancadas da alma
como tiras de carne
ensanguentada;
assim como o carinho e o torpor
após uma noite feita clara pelo
amor,
são sinais indesmentíveis da
verdade
que ecoa perdida entre as paredes
da cidade.
Poderá o amor perder-se no comércio mais banal?
poderá ser confundido com o
engate trivial?
poderá ser transacionado no
consumo habitual?
poderá ser corrompido pelo
suborno sexual?
poderá ser aviltado como
contabilidade venal?
poderá ser experimentado pelo
cálculo grosseiro
do aspeto e funcionalidade do
produto
equacionando custo e benefício
merceeiro
ou a oportunidade em que o
prejuízo será menor que o lucro?
poderá ser imitado, reproduzido e
divulgado
como uma receita que se pode
aviar em todo o lado?
poderá ser transmutado em
exercício estereotipado
suscetível de ser até pelo mais
boçal praticado?
poderá ser germinado na mentira
sempre igual
em que as promessas se vendem num
instante acidental,
em que os juramentos se quebram
como coisa dispensável
no mercado imediato de sensações
passageiras
em que qualquer sentimento é
vendido e toda a emoção permutável?
poderá ser cultivado pela
hipocrisia mais funda,
transformado numa técnica de
sedução e ludíbrio,
pervertido por tibieza ou
covardia ou malícia
trocando a frontalidade e coragem
da afirmação
pelo comportamento dissimulado do
bandido
e o prazer contrabandista da
traição?
poderá o amor ser sujeito à
poluição,
permeável à lascívia e
devassidão,
identificável a um enredo
consumível de novela
confundindo a paixão com a
escapadela?
poderá o amor ser degradado
ao ponto de ser igual em todo o
lado,
com os vícios que toda a gente
tem
quando não é capaz de ser mais
nada que ninguém?
poderá acaso não ser uma eleição
do que é mais alto e mais além,
mas apenas o
produto do sorteio
em que se vê quem, ao calhas, sai
a quem?
poderá ser chamado de assobio
e redutível às meras
manifestações de cio?
poderá o amor ser algo idêntico
ao que em todo o lado é visto,
sem nada em que se transcenda e
que o torne único,
apenas uma relação habitual,
apenas isto?
Mesmo que lágrimas de sangue
escorram pelas faces do amor
e que rios de desespero
inundem os corpos antes saciados,
mesmo nas garras frias da morte
estrangulando a paixão em agonia,
mesmo nas linhas finas do corte
dos pulsos nus da melancolia,
mesmo no passar e repassar dos
anos
numa sempre igual monotonia,
mesmo na sujeição ao peso e ao
cansaço
do inevitável dia-a-dia,
nunca poderá a verdade do amor
se perder nos abismos da
devassidão
ou ser contagiada pelo contacto
com a hipocrisia e a podridão,
nunca poderá ser trivial
a entrega absoluta do amor
nem poderá ser considerada igual
a qualquer comércio de prazer e
dor.
O amor devassa os horizontes
e perpetua-se na sua duração,
ilumina vales, rios e montes
mesmo confinado numa arrecadação.
O amor transcende o tempo,
faz-se eterno e faz-se dia,
enfrenta qualquer contratempo
mesmo que o espere a agonia.
O amor afirma-se sem pejo
incondicional e sem limite
superior a qualquer medo ou
desejo
por mais que este se estenda ou
se amplifique.
Sentimento criado pelos deuses
no início dos tempos mais
sagrados
ofusca qualquer transação profana
mesmo nos locais mais
conspurcados.
Puro e inefável,
dos tempos em que o olhar era
diferente,
capaz de encantar as pedras e os
cardos,
tornando cada lugar e cada
instante transcendente,
patenteando o divino, aqui e
agora, imanente,
toda a vida consagrada pelo amor
tem em si mesma o seu próprio
redentor.
Passam os dias, passam os meses,
passam os anos,
o encantamento, a ansiedade, a
angústia, a frustração,
passa a vida, a frescura, o
vigor, a energia,
passa a juventude, a beleza, o
entusiasmo, o ardor,
passa o próprio cansaço de passar
até não haver mais nada
que não a luz eterna e refulgente
do amor.
E mesmo nos últimos instantes de
agonia,
num sofrimento insuportável para
a carne e sangue,
deixado só e moribundo pelos
destinos do mundo,
já sem forças para lutar,
absolutamente exangue,
o amante olha dentro de si a
imagem falecida
da face antiga e olvidada que lhe
era querida,
a face íntima, desgastada pelo
olhar, da sua amada
e, no seu leito de morte, sem
ninguém que o conforte,
Em momentos de quase vir a ser
Em momentos de quase vir a ser,
eu
me recomplico sobre mim,
torço
a alma como um trapo
mas,
prestes a conseguir,
interrompo-me
ou me interrompem a mim...
A
frustração de falhar sempre
e
de me ficar a revoltar,
ridiculamente
entre,
apanhado
com as cuecas na mão,
entre
tapar e mostrar,
em
vergonha de não saber o que fazer,
a
mais ridícula emoção,
flagrante
indefinição de se ser...
Falta-me
a paciência,
falta-me
a decisão,
falta-me
a persistência
e
a organização,
onde
a disciplina?
terei
algo a dizer?
o
que eu não estou a fazer
revela-se
mais importante...
–
tudo me fica a meio,
perdido
na irritação
de
nada me ser bastante
–
preguiça ou dispersão.
Quem
me dera ser outro enfim...
Sou
inquilino de mim:
entre
o desejo de enganar o senhorio
e
a necessidade de receber a renda,
fujo-me
de me entender e perseguindo me policio...
–
Haverá alguém que me entenda?
Entender-me-ei
eu a mim?
Será
toda a gente assim?...
O
outro igual ao que eu sou!?
Em
desejos de ser outro,
eu
sinto-me quase a ser,
mas
falha-me sempre o encontro,
fico-me
sempre em não ser,
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
se bebo, bebo até cair, até esquecer
se bebo, bebo até cair, até esquecer
se fumo, fumo até tossir pulmões
se fodo, martelo até já não saber que raio estou
ali eu a fazer
se como, degluto numa só inúmeras refeições
se escrevo, deixa de existir mundo para lá das
linhas
se jogo, afogo-me numa realidade alternativa
se amo, em nada mais penso do que por onde tu
caminhas
se temo, a obsessão toma-me sem noção de quanto é
obsessiva
se estudo, uma obra torna-se redenção e tortura
pareço só ter por medida a desmesura
e nunca ter equilíbrio, nunca ter moderação
incapaz de exercer sobre mim a mínima contenção
destinada a pagar o preço às forças intestinas
que manobram nossos atos de formas clandestinas
não deuses a que se paga a húbris
nem outras figuras transcendentes
é aos próprios destinos imanentes
sempre hipotecados na voragem
sempre malogrados se quase no alvo
sempre desviados por viragem
que sempre dispersa e destrói
aquilo que no projeto da existência se constrói
e, assim, apesar de me ter lançado em projeto
chego ao fim reduzido a coisa, a objeto
incapaz de ter dado unidade
aos múltiplos vícios que na vida
me foram destruindo a identidade
assim como a força e a vontade
Que força é esta maior que eu
que impede sempre que eu me realize
e, ao mesmo tempo, leva sempre longe
cada coisa que deseje e idealize
para lá da moderação devida
excedendo a própria ação pretendida?
Donde vem esta desmesura?
Donde vem esta indestrutível tendência
a procurar sempre a rutura?
Donde vem a arrogância, a insolência?
Donde vem esta incontrolável
Por morrer uma andorinha
não termina a primavera,[1]
tal como por dor sofrida
não se acaba com a vida,
mas cada qual, ao sofrer,
passa a ser o que não era:
a ferida fica a doer,
lembrança resta severa.
O mesmo com a alegria,
o mesmo com um amor,
o mesmo com toda vida.
Se a andorinha morria,
que não se console a dor
com continuação da vida.
Ela deixou de ser o que era,
seja ou não seja
Ano Novo
Vá Todos a bater latas à janela
Gritem
todos Berrem Excitação
Subam
acima de mesas e cadeiras
Badão!
Badão! Badão!
É
meia-noite
Alegria
Alegria
Façam
bradar vossas vozes
Ergam-se
em euforia
Pensem
já num desejo
Esqueçam-se
de pudor ou pejo
Música
Ponham música a altos gritos
Dancem
Agora É agora Um beijo
É
Ano Novo Festejemos
Bailemos
Bailemos Bailemos
É
rebentar de gritar e rir
Só
para o ano há mais
É
aproveitar até explodir
e
depois muito contentinhos
pela
permitida transgressão
voltem
para dentro dos vossos ninhos
domingo, 20 de dezembro de 2020
Um gato
Um universo ainda, nada menos que um
universo entre um sonho de uma noite de verão e um gato que provoca o
desencontro eterno E a verdade é que lá o colocaste, como uma ameaça, um
pressentimento de mau agouro, uma inquietude de precaridade inevitável em
qualquer satisfação onírica Depois, afastaste-o como, num sonho que se quer
feliz, se afastam as sombras que nele se insinuam Mas não o apagaste, deixaste-o,
por trás da película de um idílio, como símbolo do entretecer constante e
insidioso de miríades de forças ignotas E a verdade é que o malogro é
inevitável e a felicidade tão-só uma ilusão, e a verdade é que um sonho de
verão é apenas lenitivo de uma existência de aflição Ensina-me como é possível
um sentido já nem peço uma redenção apenas um sentido um qualquer sentido
surreal hiperreal realreal infrarreal realdaputaqueopariu realdealgumaforma ah
realidade que se sente enfim anal enfim racional enfim falovaginal enfim retro
inflexão da incapacidade de ser expressão Ensina-me algo mais que um sujeito
que se ilude por desviar o olhar da consciência da realidade crua Troquei há
muito a possibilidade das crenças singelas pela dilaceração da crítica infinda
Não posso voltar atrás, trocar-me na loja de conveniência da infância por um eu
pacato e aborrecido, com a serenidade perene de quem se cega de qualquer olhar
que indague, analise, interprete até penetrar as fontes do aparente Resto-me
com este eu, um eu infinitamente vergastado, uma fragmentação que nunca mais
acaba, nunca mais cessa, nunca mais se interdita, eternamente esquartejado pela
disparidade dos desejos, sempre a renascer menino, sempre a confrontar-se
adolescente com o intrínseco vazio, sempre desvairando madura absurdidade até se
dispersar mesquinho na gulodice de ter e haver e sempre sempre sempre morrendo
nos confins das palavras que não valem nada, ditas por uma boca emudecida para
todos os ouvidos ensurdecidos pelo ruído produzido pela máquina da distração
universal de tudo quanto seja próprio e autêntico – eu sou o que nunca poderei
ser por precisar de funcionar como mais uma peça de máquina, como um não ser,
como uma nulidade habitada por universos de sentido e verdade Posso contar
histórias como os outros, posso me estupefaciar, posso fingir que tudo decorre
otimamente, posso mentir, posso ludibriar Mas o vazio absoluto de uma
inexistência com consciência de estar a servir absurdos que não servem para nada,
nem para os estúpidos desígnios da pseudoelite ignara que só escava a sua própria
sepultura – não consigo, até para mim há limites, até para mim há umbrais
inalcançáveis... Pensa-se o niilismo como o fim Não, o niilismo é uma
esperança desesperada O fim é já nem sequer ser possível niilismo O fim são
todos os gatos que escondem todas as possibilidades de encontro em todos os
arbustos do devir insano, até tudo ser indiferente, obliterando todo o desejo e
não sendo já possível qualquer dano, enfim farrapo, enfim dejeto, enfim
inorgânico – a serenidade enfim da desolação do estéril mineral A vida nunca
foi um sonho, nem sequer tão-só um pesadelo, a vida foi um engano, uma reação
química inusitada sempre em busca do impossível e sempre pronta a regressar ao
eterno silêncio do vazio, o abismo que a consciência teme porque a atrai, dissociação
de uma fugaz ilusão, a vertigem perante o precipício, terror e libertação, retorno
sempre ao início
sábado, 12 de dezembro de 2020
Quarta pessoa
Falo agora da quarta pessoa, falas agora da quarta pessoa, fala agora a quarta pessoa: o absolutamente estranho, sem relação. Tão pouco nada, tão pouco união. Nem ausência, nem superação. O estranho. Fim de explicação.
Eu – o quê eu sem tu? Poderia haver eu sem relação,
um eu cru? O eu vai-se constituindo na idealização do tu, assim se gera fora de
si a construção de si. E, porém, do eu não é o tu a sua projeção? Como pode a
projeção do eu se situar fora do eu? Mas não será o projetar anterior ao
próprio eu, sendo o eu uma projeção tardia? Quem seria? O que seria o que antes
do eu o tu projetaria?
Mas a criança toma consciência de si como um ele, a
menina, o menino, aquele de quem o tu fala e que aparentemente é ele. A criança
tem de aprender a projetar as projeções do tu para se projetar a si. Tu – ele –
eu e de novo a pergunta acerca da origem que projeta o tu. O projetar sem
identidade, o projetar nu.
Regresso ao eu e à impossibilidade de o projetar. O
ele que sou eu não é o eu que projeta o tu. Mas onde está este último eu que
nunca se objetiva, que nunca se vê? E, porém, que é tudo o resto senão o que
dele se vê? Impossível inerente à realidade da pessoa, cada pessoa se anula na
falta de sentido do sujeito, sempre diverso do que se diga dele, sempre
fundando tudo o resto, cada imagem, cada conceito, a linguagem – um prolixo sem
sentido estruturando-se nas ficções das pessoas. E do impossível inerente à
realidade da pessoa, antes e depois, na origem e no fim, a estranheza
inestruturável da 4ª talvez não pessoa, talvez única pessoa: as três
conduziram, na consciência da falha constante e instante, à impotência da
descaracterização, ao estranho.
Eu e o outro
Qualquer outro é uma representação minha. Aliás, não é, no fundamental, diverso de outras representações. Nos sonhos, nas alucinações induzidas por drogas, nas psicoses, etc., posso interagir com outros que acabo por concluir, noutras alturas ou através de interações com ainda outros, que não passavam de produtos da minha imaginação. Posso ter conversas com esses sonhos e até interagir de formas mais íntimas. Por outro lado, muitas das interações com outros que não são supostamente alucinações são tão estranhas ou tão efémeras que podem parecer mais irreais do que as que posso ter com fantasias. Certas personagens de jogos de computador já parecem mais reais do que certas pessoas com que supostamente contacto. Um psicótico pode ter longuíssimas relações com outros supostamente imaginários. E quem me pode garantir que eu não sou psicótico?
Como é óbvio, o facto de existirem
outros tão desagradáveis que não compreendo como uma mente poderia ser tão
perturbada ao ponto de, mesmo inconscientemente, os criar nada altera. O mesmo
acontece nos sonhos e nas alucinações. Parece evidente que ninguém acredita no
solipsismo. Para que valeria a pena falar com outros, sofrer com outros,
trabalhar com outros, defender-me de outros, acasalar com outros, ter outros
como filhos, se não passassem de fantasmas oníricos? Para me entreter? Parece
absurdo. Porém, o único ser de que eu posso ter absoluta garantia de em tal não
acreditar sou eu. Ora, se me verifico isolado na minha crença, a não ser que
suponha o que exatamente está em questão, a existência de outros sujeitos, não
tendo nenhuma garantia de não ser louco, a minha crença verifica-se muito
rapidamente um muito frágil suporte.
No entanto, toda esta situação solipsista resulta
de se supor que, pelo contrário, o eu não é suscetível de qualquer dúvida. Ora,
aí está uma fortíssima crença na gramática cuja sustentação é difícil perceber.
De facto, eu refiro tudo a mim. O “eu penso” acompanha cada uma das minhas
representações. Porém, o que é isso que pensa? É alguma coisa determinada, com
características identificáveis ou propriedades que se possam deduzir das suas
ações? As minhas próprias ações divergem tanto de instante para instante e são
de tal forma objeto de questionação para mim próprio que dificilmente poderiam
constituir um suporte para a predicação autêntica do sujeito. Por outro lado,
seja de que forma eu considere o sujeito é sempre como objeto e não como
sujeito, ou seja, não pelo que se supõe que é e dá origem à situação
solipsista. Como objeto, está exatamente na mesma situação do outro. Além
disso, mesmo que reúna todas as ocorrências que refira especialmente a mim,
continuo longe de encontrar a unidade de uma coisa que esteja na origem de
todas essas ocorrências. Existe uma tão grande variedade de fenómenos que
suponho internos como a que existe nos que suponho externos. A coerência do que
penso é, por sua vez, mais uma convicção vaga que uma realidade rigorosamente
verificada e, se existisse, apenas confirmaria que ando a contar uma história
mais ou menos fixa a mim próprio para me convencer de mim próprio. Quanto a uma
suposta unidade transcendental subjetiva, para lá de se identificarem uma série
de faculdades universais relativas à estruturação do pensamento humano que, no
caso de existirem outros humanos, em nada me identificaria especificamente a
mim, acaba por se resumir ao pressuposto “eu penso”, supondo que todas as
ligações que estabeleço utilizando as categorias são sempre ligadas na mesma
unidade que exatamente está em questão. Por sua vez, a síntese do diverso na
consciência intencional mostra, mais uma vez, a unidade do objeto e não do
sujeito, e a suposição que o sujeito em todas as diversas objetivações
temporais se liga da mesma forma geral que os objetos ou é uma suposição
genérica, ou corresponde simplesmente à ligação global a que se chama mundo. Em
última análise, a unidade subjetiva da consciência, contraposta ao mundo
enquanto objeto global, acaba por parecer antes de mais uma construção psíquica
pela qual me conto a minha identidade a mim próprio, construindo a ficção da
coisa que eu sou, muito embora essa história vá ela própria mudando durante a
vida. Na verdade, eu nada sei do que sou a não ser pelo conjunto dos objetos
ligados na consciência, ou seja, o mundo, se se quiser, do meu ponto de vista
subjetivo (como se soubesse da existência de outro).
Desta forma, a tutela subjetiva do eu sobre as suas
representações, incluindo os outros, é vazia porque nenhum conteúdo se consegue
dar a esse eu que não o das suas representações e isso não identifica nenhuma
coisa ou substância que fosse o suporte de tudo. Essa fantasia do primado do eu
contraposto ao mundo (como ainda mais a do mundo independente do eu e que o eu
absorveria) deu origem à consciência de um sujeito como objeto desenraizado que
poderia fazer tudo pois não estaria dependente de nada. Como se poderia superar
este egocentrismo e, nas versões menos ingénuas, solipsismo? O outro é encarado
como mera representação e mesmo se considerado como outro sujeito, tal
subjetividade é inacessível. Através do amor? O amor pode ser (e é em
muitos casos) a versão mais extrema
desse egocentrismo ou solipsismo. Muitas formas de amor consistem
exclusivamente na idolatria de uma imagem construída pelo sujeito psíquico.
Mesmo as experiências de contrariedade no amor nada alteram, como já se viu que
os pesadelos nada alteram. Pelos transes a que chamam meditação, porventura por
desconhecerem o significado e origem da palavra latina? Se eu dissolver a
consciência intencional numa perceção global indiferenciada, o que é se conseguiu
com isso: uma perceção global indiferenciada tão solipsista ou mais do que uma
diferenciada. Se se considera que isso permite superar a subjetividade
egocentrista ou solipsista, então ficar muito alcoolizado seria pelo menos um
passo intermédio para isso, visto reduzir em muito a perceção objetivamente
diferenciada. Outras modalidades desta dita meditação não introduzem diferença
nenhuma, a não ser pelo facto de dizerem fazer outra coisa (até o oposto) que
não aquilo que foi criticado, fazendo exatamente o mesmo.
Eu e o mundo
Eu vejo várias estrelas. Eu ouço o
impacto do vento nas folhas. Eu cheiro o odor da terra e da relva molhada pela
chuva. Eu saboreio uma pastilha. Eu sinto a rugosa casca de uma árvore. Eu
sinto uma indisposição digestiva. Eu sinto-me irritado com a demora da pessoa
com que me vou encontrar. Eu amo-a. Eu reflito acerca destas sensações,
emoções, sentimentos e pensamentos. Eu pergunto-me acerca do que é este eu.
Tudo o que eu considere é meu objeto, inclusive o próprio eu. O objeto é o que
é considerado por um sujeito. Pode existir uma coisa que não seja objeto.
Porém, na medida em que estou a considerar essa possibilidade, imediatamente
essa coisa se torna um objeto possível. Os objetos opõem-se ao sujeito. São
considerados por este, por sua espontaneidade cognitiva. Suponho que alguns
desses objetos correspondem a outros sujeitos. Porém, só tenho deles
conhecimento como objetos e como objetos nada têm de sujeitos. Considera-se que
vários desses objetos estão fora do sujeito e outros estão dentro. Estranha distinção.
Pensa-se que as estrelas que vejo estarão a muitos anos-luz do meu planeta.
Porém, mesmo para a física, a luz que vejo das estrelas não está a essa
distância. De facto, segundo a física, entrou-me literalmente pelos olhos
dentro. O objeto “estrelas” é visto aqui, a conceção de que a sua luz foi
causada a grande distância e no passado é aprendida e compreendida aqui, a
distinção entre a luz que vejo e o que a astronomia concluiu que era em si uma
estrela é entendida aqui, a conceção que tenho acerca de ótica e do
funcionamento dos meus olhos é percebida aqui. Supõe-se que, apesar de a
perceção ocorrer aqui, se refere a coisas que, embora diversas da perceção,
existem em si mesmas independente de mim. Porém, mesmo essa conceção da coisa
em si é especulada aqui. Supõe-se que, através de experimentos, eu possa testar
as minhas hipóteses acerca do que será cada coisa em si, vendo se ocorre ou não
fenomenicamente o previsto caso a coisa que se não vê corresponda à hipótese.
Mas também essa verificação ocorre aqui, as máquinas experimentais são feitas
com as conceções do sujeito e dependem da interpretação do sujeito.
Corresponderão as teorias à realidade para lá do sujeito? O homem da idade da
pedra que atribuía a dádiva do fogo a um determinado deus, julgava confirmar a
sua teoria quando, após ou durante uma reza a esse deus, conseguia dar origem a
uma chama. O mesmo, aliás, continua a acontecer nos centros religiosos
milagreiros de promessas. Admito que se encontra aí um reforço considerável
para a crença, mas a história tem mostrado que as crenças consideradas mais
indubitáveis só o eram por ninguém (ou por ninguém considerado relevante) as
pôr em dúvida. Quando o fizeram, acabaram por não resistir. Talvez exista uma
realidade para lá do sujeito, eu acredito que existe, mas só posso falar
daquela que, de uma outra forma, é considerada por mim. E as conceções que
melhor aceito são aquelas que melhor ordenam a compreensão que tenho do mundo.
É habitual contrapor o eu ao mundo.
O mundo é o conjunto de tudo o que está à frente do sujeito, mas que se supõe
transcendê-lo. Isto porque se supõe que o mundo existe independentemente do
sujeito e de que tem muito mais coisas que aquelas que o sujeito percebe. Ora,
a palavra mundo, mesmo entre os latinos, contrapõe-se a caos. Traduz, aliás, a
palavra cosmos. O cosmos, para os gregos, resultava da ação ordenadora dos
deuses a partir do caos primevo. A ciência, ao pressupor constantemente que
existe uma ordem eterna no universo, leis universais da natureza que é, apenas,
preciso descobrir, acaba por ter uma conceção análoga do mundo. Inicialmente, a
ciência atribuía essa ordem ao desígnio divino. Hoje, as crenças variam, mas
não a crença da existência dessa ordem, sem a qual nem valeria a pena fazer
ciência. Haverá uma ordem na própria realidade independentemente de qualquer
sujeito? É possível. Porém, só é possível falar dela enquanto é considerada
pelo sujeito, nem que seja sob a forma da especulação acerca de uma eventual
realidade para lá do sujeito. Na verdade, independentemente da existência ou
não de uma ordem não subjetiva, toda e qualquer ordem que haja sido atribuída
ao mundo não foi mais do que uma construção do próprio sujeito. De facto, o
mundo de que se pode falar é sempre e apenas o resultado da ordenação subjetiva
das próprias representações do eu. Especular acerca de uma ordem que não pode
ser ordenada pelo sujeito e existirá para lá dele é falar de uma suposição
subjetiva também ou então tentar falar sem se conseguir de algo mais
inconcebível que qualquer quimera, pois não há qualquer forma de lhe aceder,
nem há nenhuma razão para supor tal existência. O mundo (ou ordem) de que posso
falar é subjetivo e toda a realidade que possa existir para lá da construção
subjetiva é indizível a não ser como uma suposição subjetiva. Não há mundo sem
eu. Mas haverá eu sem o mundo?
Assim parece porque para lá de tudo o que está disposto frente ao eu e a ele contraposto, há toda uma série de representações que refiro a mim próprio. Porém, a minha indisposição digestiva é atribuída ao meu corpo que eu considero, é certo, como algo que está próximo de mim na ordenação do mundo e que, de alguma forma, possuo ou, pelo menos, pelos atos intencionais, uso, mas que não sou eu. Atribuo a irritação ou até mesmo o amor parcialmente ao meu corpo, mas já envolvo as emoções e os sentimentos na consideração de outra instância que se pode chamar alma, espírito, mente, etc., de forma mais ou menos indiferente. Em qualquer caso, na medida em que considero a irritação, o amor ou a mente, passam a ser meros objetos do sujeito e não o próprio sujeito. O mesmo acontece com a minha reflexão acerca disso e tudo aquilo que denomino consciência, inclusive as perguntas acerca dela. Seja como entidade metafísica, como eu transcendental ou como parte do psiquismo, o eu que o eu considera já não sou eu mas um objeto subjetivo. Quando me tento referir à minha atividade como espontaneidade para sublinhar o seu caráter ativo mas objetivamente inexplicado, já a estou a reduzir a um determinado tipo vago de objeto e, como tal, não consigo falar da verdadeira suposta espontaneidade do sujeito. Dessa forma, verifico afinal que tudo o que a mim atribuo acaba por ter a mesma natureza do mundo, tratam-se de objetos frente ao sujeito. Mas, então, o que é o eu? Se se eliminar tudo quanto é objeto para chegar ao sujeito, fica-se com o quê? Com nada? Como o infinitesimal ponto, o limite da extensão que se pode considerar ele próprio como não extenso, pois senão seria um pequeno círculo, o eu não é de facto nada a não ser o ponto a partir do qual se estrutura todo o mundo. Tudo é referido ao eu, tudo é sentido, percecionado, pensado pelo eu, mas nada que é sentido, percecionado e pensado parece ser o eu. O que seja em si o eu é algo que está na mesma situação da realidade em si para lá da perceção. Só se pode especular acerca disso e, quando se especula, já se não está a atingir o que se pretendia pois transforma-se esse eu ou essa coisa em si num objeto subjetivo. Porém, enquanto ponto perspetívico em relação ao qual tudo é referido, num certo sentido, todo o mundo é eu na medida em que é o conjunto das suas representações. Tal qual não há nenhum mundo de que se possa falar que não o subjetivo, também não há nenhum sujeito de que se possa falar que não aquele a que se refere todo o mundo. Assim, o mundo acaba por ser a forma referível da subjetividade. Eu, na medida em que de mim possa falar, acabo por ser o mundo.
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
Se a máscara mascara a máscara
Se a máscara mascara a máscara
longamente treinada para dissimular
o que se é, o que se faz, como se faz
até parecer natural a camuflagem
poderá acaso denunciar a natureza
sua motivação, objetivos, sua voragem?
Que disparates suscitam inusitadas situações...
Não há limites para a justaposição de máscaras
e uma nova apenas adiciona mais simulações
à artificialidade tão oleada que parece natural
até serem irreconhecíveis as específicas feições
de qualquer coisa que possa passar por um real
Mas estas máscaras destacam o olhar
sublinham as retinas, as íris, as pupilas
até tornar difícil a tecitura do falar
a insinuação do jeito e do trejeito
o treino do sorriso fingir e enganar
como sempre cada ardil foi feito
É difícil ao olhar mentir
sem se articular parte do todo
da composição, da encenação
quando é fragmentado pela máscara
e se destaca solitária a visão
sem enfeites, sem enquadramento, sem decoração
A boca pode mentir ou tergiversar
os gestos podem seduzir e até aliciar
o decote pode insinuar a promessa de delícia
mas a máscara ao realçar o olhar
sobressai brilho, sobressai tensão, sobressai intensidade
até não poder esconder do ódio
do rancor, do despeito, da inveja, a verdade
É necessário um novo treino marcial
um treino de simulação do isolado olhar
para não dissolver a urdidura social
de relações e afetos que preciso é aparentar
para alimentar relações, alianças e negócios
ou cimentar conspirações, sociedades e consórcios
E na verdade o olhar bem pode mentir
sem precisar de quaisquer apoios, adereços
e bem consegue se adaptar à situação
dispensar os suportes devindos habituais
até conseguir replicar o brilho da paixão
ao olhar para as entidades que despreza mais
Nunca se poderá deixar a verdade despontar
por trás da máscara até olhos alcançar
nunca se poderá permitir o amanhecer
da denúncia de motivos intenções e fins
nunca se poderá tolerar o desígnio se esclarecer
antes dos passos atingirem, de alvos, os confins
A espécie foi longamente adestrada na mentira
até selecionar os melhores genes da ocultação
Quem espera sua transcendência só delira
só desespero pode fazer desejar revelação
No final, superar-se-ão todas as fraquezas
e apenas se reforçarão, da mentira, as destrezas
Mas, por agora, por um momento, um instante
um lampejo de verdade poder-se-á entrever
entre o descuido de quem não treinou bastante
para que no olhar nada de real se pudesse ver
– e o desvelado não foi a pura poesia do amor
nem entrega, nem dádiva, nem nada enternecedor
mas também não apenas enviesamento da malícia
nem tão-pouco simples ressentimento embuçado
nem sequer pura apetência de prazer pela perfídia
ou tão só enfastiamento do mais farto, mais cansado
– tudo meros efeitos, meras consequências
a culminar a distorção das suas existências
Para lá das mazelas, dos vícios, das doenças
para lá de apetites de saciação ou de vingança
para lá de depressões, das euforias, das pertenças
para lá da miséria da pobreza ou da abastança
apenas uma força a impelir o animal
sem quaisquer objetivos ou conceção de bem ou mal
Impulsionado para devir e advir
qual o sentido de afirmar o indivíduo
querer conquistar, dominar e persistir
competindo com todo o múltiplo contradito
como se pensar, agir, fazer, continuar a insistir
tivesse sentido no seio do infinito?
E tal força indómita imparável
faísca acima das máscaras um instante
antes de ser disfarçada pelo treino
que impõe à camuflagem ser constante
– mas fica a pairar sobre todo o existente
o transparecido num olhar que foi olhado
até ser ocultado eternamente
pelo véu que até o olhar já disfarçado
cobrirá como se nunca tivesse alguma vez brilhado
definitivamente emudecido de significação
definitivamente apagado
gravilha deitada na estrada antes de receber alcatrão
O fogo
Pura reação sem substância puro aparecer fenoménico puro deslumbre da visão puro torpor reconfortante a chama atrai apela chama ...
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