A rua escassamente iluminada revelava-se à medida que o dia se
adivinhava. Passos pesados ouviam-se na penumbra. A figura anunciou-se antes de
poder ser vista. A imagem fosca denunciava avançada idade. Lentamente,
aproximou-se de um edifício venerando e acabou por penetrá-lo entre as arcadas.
Uma placa indicava tratar-se de uma biblioteca. O idoso dirigiu-se para a sala
de leitura. Era claro estar habituado a estar ali. Porém, após folhear alguns
tomos com um aspeto recente, a impaciência e a irritação só não os fez atirar
pelos ares por um último controlo de civilidade. Começou, então, a resmungar:
Adverso o verso no reverso do diverso
por incapaz de reduzir o díspar ao igual
Parece pernicioso pior pérfido perverso
à sentença das tábuas da lei do habitual
Desconstrui-lo e/ou torná-lo um falar à toa
convém às colossais potências da conformidade
Se a arquitetura do poema se esboroa
mais fácil condescender com sua insanidade
Houve tempos em que o verso infligia e magoava
que seduzia e deslumbrava que suave acariciava
houve tempos em que sua denúncia incomodava
Hoje o poema foi tornado mais que irrelevante
burguesmente vivenciando fragmentário o instante
deixando a praça livre para o discurso dominante
*
Mistura-se o peido da criada com o salpicão fumado
a tia solteirona com o casaco da infância
a leitura de um autor com o cheiro de um sovaco
o bordado da priminha com a depressão burguesa
tudo sem qualquer nexo senão a vida privilegiada
tão privilegiada quanto a dos deuses que entretinham
instante a instante fragmentariamente a eternidade
desejando alcançar até a mortalidade que não tinham
Porque é que o desconexo se estiver em verso
dá a impressão de subtileza e profundidade?
Porque é que o banal se estiver disperso
já é sinal de requinte e complexidade?
Porque é que disposto em verso o disparate
tem garantida publicação e lugar no escaparate?
*
Burgueses não somos nós todos desde pequenos
o universo não se tornou um paroxismo de privilégio
Tão-pouco os poemas são burgueses ou até menos
por se ter o destino garantido como dissipador régio
O distintivo da dita arte burguesa é ter de arranjar
alguma coisa arbitrária para a obra que se quer fazer
Importa o estilo importa a corrente importa o nome
por se não ter nada ao certo à partida para dizer
Ao invés
os intocáveis
inexistentes para a lisonja burguesa
fazem obras por julgarem importante o que têm a dizer
e é isso que lhes fecha a porta - não não ter subtileza
Incomoda ao inane refinamento o atrevimento de oferecer
algo que provoque precisamente o sentir e o pensar
em vez da imponderabilidade de não se sabe o quê significar
*
Interessa à ordem de classes dominante
que só se leve a sério o discurso do negócio
do processo técnico jurídico burocrático
do político utilitarista e pragmático
Despejar a possibilidade de discurso alternativo
numa elite decadente e cacofónica
inteiramente virada para o umbigo
e para os elogios mútuos que proferem
é ótimo para reduzir a alternativa à aberração
similar às exibidas no passado pelas feiras
destinada a embasbacar papalvos
incapazes de extrair daí o mínimo sentido
- e claro simultaneamente silenciar
toda a remota hipótese de alguém falar
*
Neste triste ocaso da história humana
que festeja o triunfo da distopia técnica
quanto mais vaidosamente se ufana
o individual em ostentação cénica
mais a voz se cala de dizer e de falar
reduzida à função de comunicar
segundo os padrões gerais do artificial
que extirpam todo o possível pessoal
Ao majestoso espetáculo mediático
contrapõe-se só a risível exibição
do burguês desocupado errático
que sem nada a dizer escreve à toa
e transforma a voz em projetor pneumático
flatus vocis dos sem sentido que profere
*
O baboso burguês balbuciador de baboseiras
nasceu para não ser levado a sério
e evidenciar a vacuidade da vaidade das peneiras
que se oferecem como alternativa ao império
Quanto mais se edita pavoneia bem relacionado
mais confisca a possibilidade do discurso
impedindo que a palavra possa vir a ter significado
e garantindo que o triunfo maquinal siga seu curso
É altura de escutar a orgânica doente
deixar a terra esbanjar de novo o fruto
fazer da plebe renascer o desafio urgente
Está em marcha redução do humano ao bruto
por vitória definitiva do eletrónico cativeiro
Fatídico e final este é o ensejo derradeiro
*
Não há margem para recuperar de uma derrota
não há lugar já para tentar de novo mais adiante
Ou do solo perceção palavra poesia a planta brota
ou só restará o deserto do inorgânico transplante
Ao capturar a possibilidade de discurso para nada
comete-se o maior dos crimes contra a humanidade
pior que campos de extermínio a cada volta da estrada
pior que plantação planetária fúngica de radioatividade
Há que arrancar das garras do soprador de contrafação
o monopólio da alternativa voz e escrita e edição
conceder uma remota hipótese do poeta florescer
A morte do poeta é o triunfo do operativo inumano
a substituição da vida por simulacro sempre a crescer
submersão do mundo no pesadelo global urbano
e nem uma palavra não funcional para dizer
Ao fundo da
biblioteca, surgiu uma figura tão idosa quanto a anterior, mas curiosamente
mais fresca, leve, distinta. Sorriu para o irritado que parecia ainda mais
irritado por o ver. A aparição folheou os mesmos livros que tinham provocado a
rejeição do primeiro ancião. E o que pronunciou em seguida foi bem diverso:
Recombinar aleatoriamente as palavras
recombinar sem conexão eventos
recombinar o corriqueiro e insignificante
e até simples indolências privilégio
são tentativas de revolver o solo
para renovar a fertilidade do dizer
pouco importam as palermices dadá
que se profiram para o fazer acontecer
Percebeste a artificialidade alucinada
percebeste a segmentação ao absurdo
percebeste a impossibilidade de sentido
mas manténs-te prisioneiro do operativo
incapaz de soltar as amarras do devido
só aceitando o que divisas decisivo
*
A terra precisa estrume e morte
para permitir que brotem as palavras
não as cansadas murchas para corte
mas as que fluem incontroláveis bravas
A torrente que tudo arrasa
e que parece não ter qualquer sentido
o incêndio que tudo carboniza
e cria condições de derrocada
são fertilizantes do futuro
que superam a inércia já passada
e transmutam em estrada o muro
Nesta derradeira encruzilhada
não te preocupes com a falta de poder
deixa antes o caos acontecer
*
Já nada alterará o domínio do esquemático
já nada infletirá a expansão da agressão
já nada anulará a ditadura do exato
já nada permitirá uma real rebelião
Se houvesse ainda lugar à audição
ninguém te distinguiria do falar à toa
ninguém ouviria senão sons
ninguém escutar-te-ia como voz
O poder do caos está decidido
e até as esperanças de autodestruição
só se efetivariam num arrasar total
Mas nenhum termo é definitivo
nem mesmo sob uma extinção global
é sempre possível do abismo provir luz
*
Alinham-se propostas de estupidez artificial
como se não chegasse a estupidez humana
O verdadeiro último homem revela-se
produzido pelo pior pecado da preguiça
Ninguém conseguirá articular um pensamento
sem consultar a aplicação ali à mão
Ninguém irá além do urro ou do insulto
a inteligência regride já ao papagueamento do chavão
No fim nem o humano precisará de um outro humano
No fim nem o humano será sequer humano
No fim o transumano realizar-se-á infra-humano
E a ti preocupa-te a má poesia?
Má poesia é ainda alguma poesia
no futuro nem será possível o dizer
*
Ao último homem tudo será permitido
ou não será pouco importa será igual
porque afinal nada de nada será conseguido
incapaz de algo mais que o maquinal
Cada qual que procure preservar
uma réstia ínfima de singular
poderá vir a tornar-se uma semente
um embrião remoto de senciente
Há sempre início após o fim
há sempre cosmos após o caos
há sempre sentido a brotar do absurdo
Deixa ocorrer a catástrofe do dizer
deixa aniquilar o próprio acontecer
Por acaso poderias algo alterar?
*
Quem sabe de onde virá a nova aurora
quem sabe como será novo indivíduo
quem sabe se se desdobrará nova loucura
e nela brotará fazer dizer saber sagrado?
A velhice não é desculpa para a oclusão
a morte é excelente altura para abrir a mente
permite desperspetivar cada visão
encontrar uma saúde no doente
Cada apego se torna indiferente
cada máxima esvai-se lentamente
cada tese escorre para oblívio
e tudo se sucede para alívio
da mente poesia espécie atormentada
por fim recetiva à aniquilação abençoada
As duas figuras
chegaram junto uma da outra, mas já não se confrontaram – interpenetraram-se, juntaram-se,
fundiram-se. A nova figura era tão idosa quanto as anteriores, mas não tinha
nem o seu peso, nem sua leveza. Poder-se-ia questionar se sequer era uma
figura.
Não há limites para o dizer
não há limites para o pensar
não há limites para se ser
nem tão-pouco para ignorar
As palavras as culturas as espécies
soçobram umas atrás de outras
Quando algo chega a fazer sentido
já jaz deposto em necrotério
Não há forma de fazer cessar a sucessão
seu nascimento e morte é necessário
um é do outro determinação
Mas o fundo de todo o vir a ser é o possível
possível que possibilita o diverso
e assim o sentido a arte o verso
*
É possível que venha a ficar rico
é possível que Shiva e Odin existam
é possível que copule com aquele galã
é possível que um asteroide nos impluda
Tais possibilidades são da ignorância
Só por não conhecer tudo
são possíveis tais possibilidades
que ocorrerão ou não necessariamente
Mas de onde emana todo esse necessário
que possibilita todo esse ser aí
que torna possível todos os presentes
passados presentes e futuros
um manancial sem fim de entes
de vazios de demandas e de muros?
*
Não, não há Deus
nem qualquer outro delírio infantil
Tão-pouco liberdade metafísica
ou substância de entidade individual
Mas sob todo o aparecer
inclusive a si própria da consciência
sob todos os possíveis contingentes
sob toda a necessidade e determinação
presença perene da possibilidade
que possibilita haver entes
vácuos campos alteridade
e ilusões de dimensões diferentes
o divino demoníaco transcendente
e o mistério eterno do diferente
© Joaquim Lúcio, 8/1/24